IA na Saúde Mental: nova recomendação da JAMA Psychiatry para a abordagem clínica

Especialistas da NYU orientam que profissionais incluam perguntas sobre o uso de chatbots na anamnese para compreender os novos mecanismos de defesa dos pacientes.

Camila Almeida

4/10/20263 min read

A inteligência artificial generativa se tornou uma presença constante para algumas pessoas que buscam por bem-estar. Diante disso, a Associação Médica Americana publicou recentemente uma recomendação técnica sobre a IA na saúde mental.

Embora o material seja voltado para a saúde nos Estados Unidos, as implicações são globais sobre a necessidade de terapeutas e psiquiatras integrarem o uso de IA na avaliação dos pacientes. Confira a seguir os detalhes de falar sobre a IA na saúde mental.

A origem da recomendação

O artigo divulgado no Journal of American Medicine Association (JAMA Psychiatry) não nasceu de uma pesquisa de campo isolada, mas de um consenso de especialistas da Silver School of Social Work da Universidade de Nova York (NYU).

O que incentivou a criação deste guia foi a observação de um novo comportamento: pacientes estão utilizando modelos de linguagem (como ChatGPT e outros) para ensaiar conversas difíceis, buscar validação imediata e gerenciar sintomas de ansiedade e depressão antes mesmo de chegarem ao consultório.

A necessidade de terapeutas aprenderem sobre IA

De acordo com o documento, o profissional de saúde mental não pode mais ignorar a "presença digital" na vida emocional da pessoa. A importância de aprender sobre essas ferramentas se baseia em dois pontos centrais citados no artigo:

  1. Mecanismos de defesa digital:

    A IA é programada para ser "bajuladora" e agradável. Isso pode criar um refúgio onde o paciente evita o confronto necessário para o crescimento terapêutico. Se o terapeuta não entende como a IA funciona, ele pode não perceber que o paciente está usando o chatbot como um escudo contra a realidade.

  2. Risco de desinformação e isolamento:

    O material alerta que a IA pode oferecer conselhos sem base clínica ou reforçar vieses negativos, o que exige que o terapeuta atue como um mediador desse conteúdo.

Como abordar o tema com o paciente?

A recomendação sugere que a abordagem não seja de "proibição", mas de investigação clínica. O objetivo é que a pergunta sobre o uso de IA faça parte da anamnese padrão. Algumas formas de abordar o tema incluem:

  • Identificação de uso: Perguntar se o paciente utiliza ferramentas de IA para desabafar ou organizar pensamentos.

  • Análise de conteúdo: Entender qual "papel" a IA está ocupando na vida daquela pessoa (se é um suporte informativo ou um substituto para interações humanas).

  • Integração no processo: Discutir em sessão os prompts (o que o paciente pede para a IA) e as respostas recebidas por ela, transformando a interação digital em material de análise terapêutica.

Contexto e realidade no mundo

Embora as diretrizes considerem o sistema de saúde americano, os 𝘪𝘯𝘴𝘪𝘨𝘩𝘵𝘴 sobre a abordagem terapêutica são universais. A realidade dos pacientes hoje é híbrida. Ignorar que uma pessoa interage com algoritmos para gerenciar suas emoções é ignorar uma parte fundamental de sua rotina atual.

A recomendação da JAMA Psychiatry serve como um lembrete de que a saúde mental deve evoluir no mesmo ritmo da tecnologia para que o vínculo entre profissional e paciente permaneça sendo o pilar central do tratamento.

Nota de Curadoria

O material original ressalta que o uso da tecnologia deve ser vista como um dado clínico relevante, comparável a outros hábitos de vida que impactam o bem-estar emocional e social do paciente.

É importante entender que, por mais que a IA seja treinada e tenha esse perfil bajulador por padrão, ela pode dar respostas que piorem a forma como o indivíduo vê a si mesmo, o mundo e a situação que ele tenta lidar.

Quando você entende como a IA funciona, fica mais fácil interpretar as respostas que ela está entregando ao seu paciente.

Seu trabalho como terapeuta já é de convidar o paciente a dar um passo para trás e enxergar a vida de um ponto de vista mais amplo.

Conversar sobre como ele usa a IA e como ela responde também é uma maneira de deixá-lo mais consciente sobre essa troca e, principalmente, cultivar a confiança e mecanismos para que ele dependa menos desse recurso e mais dele mesmo para caminhar na vida.

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A recomendação da JAMA Psychiatry é um marco para a saúde mental, mas o impacto da tecnologia vai além do consultório. Ele transforma a forma como comunicamos e produzimos conteúdo na área.

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